quarta-feira, 23 de abril de 2008

Vidinha


Pedro sorri. Vento no cabelo encaracolado. Primeiro dia no fast food. A chapa quente dos hambúrgueres. Uniforme, crachá, carteira assinada. Estilo americano. Bacana. Dinheiro pro cinema. Duas cadeiras de Administração. Futuro. Porto Alegre é demais, cara! Pedro trabalha duro. FGTS, PIS, CTPS, CIC, CPF. Tem vinte anos. Faz parte duma rede mundial. O planeta inteiro conhece o seu patrão. Gente legal come hambúrguer. Tri bala trabalhar: salário, férias, banco de horas. A grande engrenagem. Sorri. O gerente nervoso também sorri. Vento sopra as páginas da carteira de trabalho. Capa verde plastificada. Salta um lanche feliz, guri com cara de idiota!
E Pedro ainda sorri.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Rapidinha


A trepada mais en-lou-que-ce-do-ra que teve ela tava sedada.

sábado, 19 de abril de 2008

A falta que ele me faz.

o globo
Foi numa época que eu tava muito só. Só de minha vida. Nada pouco para quem era de libra. Então ele passava a minha frente tenra presença, voz rouca, gutural e parecia que me esnobava como se eu fosse um objeto e ele, bem, ele não. Mas nas ditas relações afetivas mesmo baseadas apenas nas sensações, fatalmente, os sujeitos tornavam-se objetos uns dos outros. Assim cedi ao impulso de invadi-lo com minha materialidade reluzindo aura dourada, abri a garagem e o lambi de cabo a rabo, abaixada, vulgar, rebaixada, primitiva. Engoli a fuligem da estrada, após o ato de indecifrável sacanagem. Foi bom, uau!, foi muuuito bom... Mas a porra do alarme disparou e apareceu uma louca com máscara de pepino na cara e um pé-de-cabra na mão:

-Caralho, sabia que tu era puta mas não precisava trepar com o meu Maverick!

bem de perto eles são feios.

foto:tiny vessels
Descobriu que atraía homens feios. Aceitou tal carma e elaborou estratégias:

Não trocava os óculos vencidos.
Não se aproximava demais.
E - no inverno - paquerava somente nas universidades
. Porque no verão o verniz da beleza derretia.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

doces lábios




Quando te beijo sinto o gosto da vagina. De outra.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

veridiana agnes


...a novidade do dia é que Veridiana Agnes não tá bêbada...


E por mais que pareça bêbada talvez pelos gestos largos como se agarrasse uma imensa nuvem invisível, talvez pela gargalhada rouca que a leva às lágrimas ácidas, talvez porque bata com força os tamancos plataforma no assoalho de madeira – ainda assim Veridiana Agnes não tá bêbada. É artista, ferrada mas ARTISTA. Dirige um fusca setentão com todas as peças originais. E quando também não tá bêbada mas de saco cheio de fingir que o fracasso é o seu estilo pessoal de criar e que a bebida é a sua marca registrada como suas musas roqueiras melhores e piores que ela e quando o velho fusca parece vulgar e feio e os tamancos de madeira arrebentam no meio da avenida Assis Brasil e quando a imensa nuvem invisível se dissipa e ela cai de cara na realidade: aí Veridiana Agnes atira-se debaixo do metrô


...e morre de vez...